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| Muros Tortos - experiências desestabilizadoras |
| 09 de julho de 2007 - 11:37 | ||||||||||||||||||||||||||||||
Chico Mazzoni:
Brincar com questões da estabilidade
nestes tempos cínicos, em que se perdeu o respeito até pelas boas mentiras e em
que o cidadão perdeu literalmente o direito de ir e vir, pelo menos na hora
combinada, pode parecer até ironia.Não custa entretanto arriscar uma reflexão acerca do arcaísmo e da incompetência do nosso fazer arquitetônico ainda e fortemente ancorado, através das conhecidas e emboloradas desculpas tecnológicas, no famigerado sistema da arqui-trave, aquele mesmo de Stonehenge, há 3000 anos A.C. Deste modo a humanidade, amestrada, resignada à tediosa rotina proporcionada pelo espaço cartesiano, prévia e burocraticamente construído para sua existência, sucumbe facilmente ao fascínio das raríssimas experiências desestabilizadoras que uns poucos santos, se tantos, nos seus cantos, ousam propor. Não é por acaso, portanto, que a atual exposição Richard Serra - 40 Anos de Escultura, no MoMa - Museu de Arte Moderna de Nova York, até setembro deste ano, seja, seguramente, a principal atração da Big Apple, neste verão. Devo confessar que após trinta horas entre aeroportos brasileiros, perdas de vôos, conexões imprevistas, perdas de malas etc., dirigi-me ao MoMa sem grandes expectativas. Estava muito mais interessado na reforma do próprio edifício, re-inaugurado em fins de 2004, sob projeto do até então desconhecido arquiteto japonês Tanigushi que o re-propõe de maneira rigorosa, em conformidade com os parâmetros modernistas do edifício anterior, e o re-insere de maneira mimética, quase invisível, na selva de pedra que lhe está em volta, com resultado, por sinal, irrepreensível. Claro que Serra já povoava nosso imaginário desde, sobretudo, aquela grande sala do Guggenheim/Bilbao, construída exclusivamente para ele, em 1997, onde o jogo entre suas placas tortas e sinuosas de aço e as paredes também tortas de titânio, propostas por Frank Ghery, mais parecia uma brincadeira codificada do arquiteto com o escultor, deixando de fora deste orgasmo nós, público de simples mortais. Tudo ao contrário, é o que se pode constatar nesta mostra de agora, em que o edifício é rigoroso, rígido, ortogonal, arquitetonicamente minimalista (mais para o bem que para o mal). Aqui quem muda a percepção do espaço, e de modo estonteante, são as placas ondeantes e multi-encurvadas de Serra. Entra-se numa experiência absolutamente sensorial, da percepção topoceptiva do espaço, quase sensual, na qual o orgasmo, no final, estará garantido para todos os mortais. Enquanto isso o edifício fica lá, como um suporte inerte, como devem ser os museus.
Fica bastante evidente que Serra rompe as fronteiras entre escultura, arquitetura e, diria sem muito medo de errar, a própria percepção do espaço urbano, em face à escala de trabalho escolhida. É notório, nesta experiência, o domínio que ele exerce sobre efeitos topológicos tais como envolvimento, amplidão, estreitamente e alargamento, e perspectivos como direcionamento, emolduramento, impedimento etc., como diria a Kohlsdorf, quando apreendemos a forma da cidade. O fato é que ele mexe efetivamente com os nossos "labirintos" (físicos e arquetípicos) levando-nos a uma nova experiência desestabilizadora.
Obviamente, "desmoralizar" o efeito da gravidade sobre os corpos tem sido a meta de escultores, dançarinos e demais criadores que lidam com a inércia e com os movimentos. Esta não tem sido, todavia, a meta dos arquitetos, dos construtores do espaço vivencial, pelo menos na sua generalidade. É incrível como nas escolas, nos escritórios e nas ruas nos resignamos à ortogonalidade, tornando mais monótona a nossa existência. Que muros possam ser um pouco tortos, mais nos parece obra de ficção: haja vista o impacto provocado, até hoje, pelo Gabinete do Doutor Caligari, referência do cinema expressionista alemão, dirigido por Robert Wiene, em 1920. É necessário entretanto que se faça justiça a arquitetos modernos que, de alguma maneira, ousaram subverter a concepção conservadora do espaço, entortando muros para criar fantasias. Deixando à parte a contribuição insólita de Gaudí (abordá-la aqui seria até covardia!) comecemos pelo velho mestre americano Frank Lloyd Wright que propõe, em plena e careta Quinta Avenida dos anos 50, o seu caracol “guggenheimico” onde o difícil é encontrar um ângulo reto entre paredes e pisos para desgraça da pompa da velha aristocracia nova-iorquina de então.
Também não se pode deixar de mencionar, de novo, as obras recentes do outro Frank, o Ghery, que, a partir do já citado Guggenheim Bilbao, vem sendo a referência imediata para tudo de torto e inesperado que se pretenda evocar, em matéria de arquitetura. Com a ressalva de que este tinha tido já, como inspiração, aquele Guggenheim nova-iorquino do velho Wright. Por último, que seja feita a merecida reverência a mais um Frank, o Stella, outro artista (pintor) disposto a romper os limites de seus canais de expressão, invadindo despudoradamente as fronteiras da produção do espaço, como bem se verifica na mostra Painting into Architecture que, não por acaso, está sendo levada simultaneamente no Metropolitan Museum of Art de Nova York, setor Arte Moderna e no terraço, aberto a público há poucos anos.
Sua escala de trabalho, suas proporções e a possibilidade de se entrar e sair das suas obras/instalações demonstram, com clareza, o desejo de proporcionar experiências desestabilizadoras, através de muros tortos, como, lamentavelmente, os arquitetos não têm feito. * Chico Mazzoni é artista plástico, designer e arquiteto mestre em restauro dos monumentos.
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Chico Mazzoni:
Brincar com questões da estabilidade
nestes tempos cínicos, em que se perdeu o respeito até pelas boas mentiras e em
que o cidadão perdeu literalmente o direito de ir e vir, pelo menos na hora
combinada, pode parecer até ironia.






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