No vai-e-vem das prioridades sobem e descem as tensões, afloram angústias, sobra adrenalina. É o esporte radical da existência humana que vai desde o manter-se vivo pro mercado e pra vida até o satisfazer vaidades, medidas pela quantidade de sucessos. Daí tudo isso exige uma válvula reguladora de pressão... Respirar fundo, baixar a bola, tirar a tampa, soltar os músculos, reclinar e soltar a imaginação, sonhar, sonhar muito. Pensar não dói nem faz calos, muito pelo contrário. Em alguns momentos é até divertido e prazeroso. Pensar especificamente sobre um determinado assunto, já é outra volta do novelo... Requer preparativos como preceder análises e devaneios investigativos com estudos, pesquisas, conversas que fertilizem o terreno a ser semeado pela imaginação e intuição na busca das respostas. Pensar com prazo determinado e compromissado em se obter uma solução... é contagem regressiva! Nem pensar... é tortura!
Pois é, nesse final de ano e na folga do Carnaval usei meu tempo livre para responder aquelas perguntas que deixei em aberto no artigo passado quando voltei de Dubai e Abu Dhabi, lembram? Comprometendo-me a respondê-las durante as férias, então aqui vai:
1ª questão: você consegue imaginar um mundo sem arquitetura?
Na pré-história o homem buscou a caverna até construir seu primeiro abrigo. Tudo lhe era adverso. Era preciso se proteger, abrigar, defender e o mundo era imenso diante da sua pequenez. O mundo do novo homem, como diz Hanno Rauterberg é, ao mesmo tempo, menor do que jamais foi e maior do que nunca, ou seja, as distâncias e o tempo encurtam, enquanto a quantidade de informações aumenta. Assim, a todo instante, você necessita de espaços apropriados para as muitas atividades e serviços. Como viver então sem arquitetura? Estádios, shoppings, aeroportos, hospitais, restaurantes, teatros, hotéis, residências, etc. Haja arquitetura para tantas funções!!!
2ª questão: de que é feita a arquitetura?
Diria de uma forma simplificada que a matéria prima da arquitetura é o espaço. Podendo ser, aberto ou fechado, abrigado ou não, interno ou externo. Espaço acessível, articulado, compatível com a função. Estar dentro! Usar...
3ª questão: Em arquitetura o que é importante para se viver bem?
Concordo e me identifico muito com a definição do grande estruturalista Cecil Belmond para essa questão do que seja importante até porque a arquitetura que você vive bem é para você a boa arquitetura e segundo ele: “a boa arquitetura nunca segue um princípio, mas oferece uma grande variedade de atmosferas bem diferentes. Porque uma vida sem variedade, excitação e ambivalências seria terrivelmente monótona. Eu acredito piamente na força impulsionadora da arquitetura”. Seguir em frente reto não é maneira de progredir. Contudo, ainda acredito que nos desenvolvemos em espiral, tecemos redes, o que seja. É assim que acontece com o cérebro humano. Se ele não for alimentado com coisas novas ele encolhe. De modo que se não quisermos regredir temos que seguir em frente nos desenvolvendo.
4ª questão: Na arquitetura o que nos torna feliz?
Vou me valer para essa questão de uma pergunta feita a Rem Kolhaas por um entrevistador que disparou - Seus prédios são promessas de felicidade? Kolhaas respondeu “eu prefiro me manter calado. Nenhum arquiteto pode supor que é capaz de prescrever ou mesmo definir a felicidade. Embora, é claro, eu não possa continuar a vida sem ideais e um certo grau de otimismo. Bem, está bem, a arquitetura da OMA pode, na verdade, fazer muitas pessoas felizes, não decretando que sejam felizes, mas sim, superando restrições. Ela não o força a desperdiçar tempo e energia, na verdade, ela estabelece alguma coisa livre e abre os espaços.”
5ª questão: Por fim, chegamos então a última e mais importante das questões, que no nosso entender sintetiza todas as outras e vem sendo feita desde a época do iluminismo: o que é de fato uma boa arquitetura?
Certas questões têm que ser respondidas com relativa calma, parcimônia, isenção e muito cuidado. Usando toda a experiência vivida e adquirida de modo a não incorrer na tentação da objetividade, uma vez que, não sendo matemática e envolvendo tão grande número de componentes, produz inevitavelmente conceitos e sentimentos por vezes tão díspares que estão mais para teses filosóficas que para alvos estáticos dispostos a tiro seco de carga única. É preciso invocar o tempo, olhar para frente e para trás, estudar com mais profundidade refazendo costumeiras perguntas como as respondidas anteriormente, sabendo presumidamente o que é na verdade a arquitetura, tentando com todos os instrumentos e informações disponíveis exercitar-se numa futurologia embasada em como estaremos vivendo nos anos ou décadas que se avizinham. Não obstante, como diz o grande arquiteto alemão, livre pensador e pesquisador nato, Frei Otto “hoje em dia algumas pessoas ainda perguntam qual deve ser a aparência da arquitetura. Isso me enfurece! Não é uma questão de exteriores. As pessoas não têm apenas olhos, elas têm uma grande variedade de necessidades de longo alcance. É por isso que os arquitetos não deveriam ser tão rasteiros nas perguntas e respostas.” Assim, concluo tentando responder abrangentemente de modo sintético a questão que “a boa arquitetura dentro do meu ponto de vista pessoal é aquela que atende todas as necessidades para qual foi criada, com eficiência e profissionalidade promovendo bem estar, conforto e prazer a quem use, bem como, emocionando a quem a aprecie, além, é claro, de emprestar ao sítio onde foi implantada referência pelas qualidades inerentes a sua plástica, estética e modernidade pela sua harmonia ou contraste. Por tudo isso digo sempre que ser arquiteto é adicionar ao presente o que será valor no futuro, embora muitas vezes seja necessário uma tarefa árdua de aculturação para tornar isso possível.”













