Quem gostaria de receber migalhas?
26 de março de 2009 - 21:18
ImageDepois de alguns meses "fora do ar", recomeçamos 2009 com votos de um ano de paz e de respeito às diferenças, voltando a tratar desse tema de capital importância que, como nos ensinou o arquiteto Demetrio Ribeiro,

"... é muito mais do que uma questão de cadeira de rodas. A acessibilidade não é um aspecto colateral da arquitetura, uma especialização, mas sim a essência dela levada às últimas conseqüências. As pessoas não contemplam a arquitetura, mas criam o espaço com os seus movimentos, desde aqueles que se fazem numa cozinha até os de uma procissão saindo da catedral. Não há espaço arquitetônico sem pessoas. Sem elas, o arquiteto apenas sonha."

E para marcar esse recomeço convidamos todos a uma reflexão, trazendo o depoimento de Fábio Adiron, consultor e professor de marketing, fundador e presidente da Associação Mais 1, membro da Comissão Executiva do Fórum Permanente de Educação Inclusiva e moderador do grupo de discussão sobre Síndrome de Down do Yahoo Grupos. Fugindo dos recursos fáceis da caridade e da educação especial, Fábio luta há seis anos "por uma inclusão ampla, geral e irrestrita, a favor dos direitos de todos."

NÓS NÃO QUEREMOS MIGALHAS!
Fábio Adiron

 
"migalhas dormidas do teu pão,
raspas e restos me interessam"...

 (Maior abandonado - Cazuza/Frejat)

 
O apaixonado Cazuza declarava estar satisfeito apenas com as migalhas que pudessem sobrar da mesa do objeto do seu amor, apenas um pouquinho de atenção seria suficiente para que ele deixasse de ser um maior abandonado. Afinal, ter mais do que isso, lhe parecia um sonho inatingível.

Infelizmente as minorias excluídas da nossa sociedade demonstram, a cada dia, que as migalhas dos serviços públicos e privados lhes tem sido satisfatórias, depois de tanto tempo sem ter acesso sequer às sobras, tudo que vem é lucro. Alguns alegam que essa postura é apenas a cautelosa forma de comer a sopa quente pelas bordas, mas será que isso não é apenas conformismo? Nós, que estamos envolvidos em um movimento que busca a   inclusão, não deveríamos aceitar as migalhas do poder, mas dividir o pão com todos.

* Não queremos o favor e a comiseração de transporte público gratuito; queremos ônibus, trens e metrôs que sejam acessíveis a todos.

* Não queremos somente rampas e elevadores espalhados pela cidade; queremos tratamento digno como seres humanos.

* Não queremos isenção de impostos; queremos uma distribuição de renda mais justa que permita a todos participarem do mercado de consumo.

* Não queremos cotas que nos concedam vagas em universidades; queremos uma educação de qualidade que nos dê as mesmas chances e oportunidades que as classes privilegiadas.

* Não queremos cotas que obriguem as empresas a nos empregar (coitadinhos de nós...); queremos formação profissional para nos candidatar de forma digna aos empregos.

* Não queremos filas especiais; queremos atendimento decente para todos.

* Não queremos educação especial que segregue aqueles que a sociedade prefere fingir que não vê; queremos uma educação que seja especialmente qualificada para atender cada ser humano.

* Não queremos beneficência; queremos respeito e acesso aos bens e serviços.

Enquanto continuarmos a pedir migalhas, o máximo que a sociedade vai nos conceder são exatamente elas. Pior, o poder vai continuar acreditando que está nos fazendo um grande favor. Manter esse discurso é um problema ideológico, por que o que se esconde atrás dessa atitude é a rejeição da diversidade como valor humano e a perpetuação das diferenças entre cidadãos de 1ª e 2ª classes, ressaltando que suas diferenças são insuperáveis de uma forma determinista e, mesmo que dividam o mesmo ônibus, a mesma mesa e a mesma cadeira, seguem caminhos diferentes e, às vezes, opostos.


Por Flávia Boni Licht - Por Flavia Boni Licht - Arquiteta, especialista em acessibilidade e representante titular do IAB-RS na Comissão Permanente de Acessibilidade de Porto Alegre.


migalhapao









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  Comentários (3)
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 1 Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 30/04/2009 - 09:01 , IP: 200.198.196.129
Sou arquiteta e trabalho focada na acessibilidade, eu concordo integralmente com o que foi dito aqui. Acredito que nós, como categoria ainda não levamos à sério a questão. Talvez porque a tendência da nossa sociedade seja fechar os olhos para o que nos põe em contato com nossa humanidade. Assim seguimos alienados, carregando para nossas profissões essa tendência...
 2 MIGALHAS
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 11/05/2009 - 19:18 , IP: 201.19.81.94
É VERDADE...INFELISMENTE O QUE ELES OFERECEM É MIGALHAS,O POVO NÃO QUE ESMOLA O POVO QUE ESCOLA.A ACEITAÇÃO DO POVO É ATE ADMISIVEL POVO SOFRIDO SEM EDUCAÇÃO ,MORADIA ,EMPREGO ENTRE OUTRAS É MUITO DIFICIL
 3 MIGALHAS
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 11/05/2009 - 19:18 , IP: 201.19.81.94
É VERDADE...INFELISMENTE O QUE ELES OFERECEM É MIGALHAS,O POVO NÃO QUE ESMOLA O POVO QUE ESCOLA.A ACEITAÇÃO DO POVO É ATE ADMISIVEL POVO SOFRIDO SEM EDUCAÇÃO ,MORADIA ,EMPREGO ENTRE OUTRAS É MUITO DIFICIL
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