Relação arquiteto e cliente
04 de setembro de 2009 - 10:03
Image Um jogo de xadrez deveras complicado!


Navegando na internet, fiquei sabendo pelo Wikipédia que na sociedade da Roma Antiga cliente (do latim cliens) era um plebeu associado a um patrono benfeitor (patronus, um predecessor de padrinho, patrão). Atualmente, o cliente tem outro papel. É uma pessoa (física ou jurídica) com acesso a várias opções de produtos ou serviços que participa de todo o processo de produção, desde a sua concepção até o seu consumo, e cuja aceitação do produto ou serviço garante a sobrevivência de quem os fornece. No mesmo site, digitei então "arquiteto" e saiu algo assim: a palavra vem do grego arkhitektôn, que significa "o construtor principal". A partir daí, fiquei divagando sobre a complexa relação cliente-arquiteto e considerei que o tema merecia uma reflexão.

Fiz uma analogia com o jogo de xadrez. As peças estão no tabuleiro. O profissional (no caso, o arquiteto) foi contratado, e a concepção do projeto (do arquiteto ou do cliente?) terá início. E depois acontecerá a execução da obra (muitas vezes, obra da vida do cliente). E as regras? Bem, as regras nem sempre estão tão bem definidas quanto no xadrez.


Em meus anos de trabalho deparei com muitos comportamentos diferentes nesse assunto. Acredito que o cliente deva participar expondo fielmente suas necessidades - expressas muitas vezes de forma subjacente, quando ele relata sua cultura, seu modo de vida, seus sonhos e planos; enquanto o arquiteto, o profissional qualificado e experiente, trabalhará arduamente para atender, surpreender e superar tais expectativas, por meio da correta compreensão do que o cliente pretende de fato. Se agir francamente, com diálogo aberto e próximo, muitos dos possíveis problemas poderão ser resolvidos antes mesmo de ocorrerem.


Empatia é uma das melhores táticas. Rei e rainha, lado a lado, respeitando a função e participação um do outro. Como líder estrategista, o arquiteto deverá fazer com que o jogo aconteça, por meio de movimentos precisamente calculados. E o cliente, participando das decisões e sendo atendido em seus pedidos, inevitavelmente sairá satisfeito. A liberdade de criação e uma linha de trabalho contínua (de um lado) e o compromisso (de outro) são fundamentais para o sucesso do trabalho desenvolvido.


Em minha opinião, o arquiteto tipo torre, que só vê o que está a sua frente, atrás de si ou nas suas laterais, desconsiderando a visão macro do cliente, suas reivindicações e seus sentimentos, perde muito. Perde detalhes. Perde inspiração. Pode perder o cliente. Tal profissional se esquece de que será ele (o cliente) o futuro usuário do espaço. Afinal, os ideais de quem estão ali? Este tipo assemelha-se muito ao arquiteto-bispo, que no xadrez, ao executar seus movimentos, não podendo "pular" sobre nenhuma peça em seu caminho, "tira da jogada" tais impedimentos, desconsiderando os desejos alheios... Este tipo está fora de moda, está "out" como dizem os adolescentes.


Também não posso concordar com o arquiteto-peão, aquele que só dá um passinho de cada vez, sempre temendo o olhar atento (e muitas vezes até amedrontado) de seu cliente. É preciso haver confiança mútua para o desenvolvimento e plena conclusão do projeto e execução da obra! Por analogia, cito aqui também os movimentos do cavalo, que emperra diante de situações não previstas. É preciso muito domínio desse jogo, para, com criatividade, superar todos os obstáculos!


No jogo-obra as adversidades devem se restringir aos prazos de entrega contra o cronograma apertado, as altas da inflação versus orçamento já aprovado, a falta de materiais no mercado, o eventual mau tempo, a doença do colaborador. No tabuleiro da obra, o arquiteto protege o cliente dos ataques externos, coloca-se ao seu lado, com toda a sua equipe, trabalhando arduamente por um mesmo ideal: a proteção do cliente diante das intempéries e sua plena satisfação ao final.


No xadrez, um jogador pode desistir a qualquer momento, o que provoca sua ruína. Em obras não pode haver desistências, pois isso implicaria derrota para todos! Na relação cliente-arquiteto, a partida é ganha quando o profissional entrega as chaves e, nessa hora, recebe um afetuoso aperto de mão e um sorriso feliz!

Por Fábio Rocha - Diplomado pela tradicional Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Fabio Rocha atua desde 1993 em Arquitetura & Interiores. Cursos variados, relacionados às novas técnicas construtivas, materiais de acabamento, luminotécnica, decoração, feng shui, gerenciamento de obras, entre outros, o mantêm integrado às evoluções mercadológicas.

Escrever comentário
  • Por favor, comente assuntos relevantes ao texto.
  • Ataques pessoais serão apagados.
  • Por favor, não use este espaço para uso comercial.
  • O comentário só será publicado com a digitação correta do código de segurança.
Nome:
E-mail
Site
Título:
Comentário:

Código:* Code
Desejo ser avisado dos próximos comentários publicados.


Views: 838 | Imprimir | E-mail

  Comentários (5)
Comentários RSS
 1 Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 11/09/2009 - 14:10 , IP: 189.59.57.10
Parabéns Fábio. Pretendo fazer arquitetura e achei um tanto interessante as dicas e as comparações que fez da relação cliente-arquiteto com o jogo de xadrez.
 2 O maestro
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail website, em 01/12/2009 - 22:18 , IP: 189.101.108.135
Reza a lenda que, ao perder o velho e excelente maestro da orquestra nacional, um poderoso soberano resolveu nomear, para a vaga do defunto, um sobrinho seu, recém-formado em música, que, segundo a mãe, vivia isolado do mundo, apenas imerso no estudo de complexas partituras clássicas e na fértil produção de sofisticadas sinfonias.  
 
O rapaz não fez-se de rogado: depois de assumir o cargo rumou, de batuta em punho, para o primeiro ensaio (portava uma peruca grisalha e pequeno óculos, o que lhe dava a aparência de um “monstro” musical).  
 
Decidiu começar a sessão com uma peça, famosa, da qual conhecia todos os mínimos detalhes. Embora suas inexperientes postura e gesticulação - além dos olhos fechados - causassem alguma estranheza aos músicos, o ensaio foi caminhando, sem grandes problemas. Foi quando o novato maestro, subitamente, interrompeu a execução e, ainda de olhos fechados, apontando a batuta para um flanco da orquestra, disse em voz alta:  
“- O TERCEIRO VIOLINO, DA SEGUNDA FILA, DESAFINOU !!.... “ 
Fez-se um silêncio de cortar-se em fatias; e, em seguida, um tímido clarinetista respondeu: 
“- MAS... MAESTRO,.... ELE NÃO VEIO HOJE !!.... . “  
Depois de novo e sepulcral silêncio, o jovem gênio vociferou:  
“...- POIS QUANDO ELE VIER, DIGAM-LHE !!! ...... “ 
 
( e continuou, como “maestro-do-rei”, e badalado na corte, até o fim da vida ...)  
 
........................................................................................ 
 
Moral: Qualquer semelhança, do jovem maestro, com arquitetos brasileiros, recem-formados, debutando num canteiro de obras (falo por mim, há 43 anos atrás...), será mera constatação....
 3 Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 08/12/2009 - 18:00 , IP: 189.19.153.91
Parabéns Fábio... Gostei muito de seu texto. 
Quem lida direto com o cliente, principalmente aquele que solicita projetos residenciais, precisa ser antes de tudo, um "psicólogo" para desvendar o que esse "ser" realmente deseja e no decorrer da experiência, saber lidar com as mudanças de humor e todos os imprevistos possíveis. 
Nesses meus quase 15 anos de experiência prática, já presenciei muitas situações e humores. Concluo que quando há sinceridade e transparência na relação é que o projeto e a obra fluem melhor: uma relação de confiança onde cada qual faz seu melhor. 
 
Mas projeto sem obra é mero papel "rascunhado" e é na obra que o "bicho pega". Sobre isso, os clientes precisam entender que obra não é engenharia mecânica, onde existe precisão milimétrica. É sim um grande artesanato, feito por operários que se bem coordenados farão o seu melhor. Porém, impossível não ocorrerem imperfeições aceitáveis e que não comprometem o resultado total. 
 
Não gosto do termo "construir um sonho", pois sonhos "acordados" são perfeitos e obras, com todos seus ingredientes materiais e humanos, não. 
E alguns clientes simplesmente não aceitam isso como fato pois idealizam um cenário que na realidade não ocorre.
 4 PULINOX
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 14/02/2010 - 19:16 , IP: 200.210.47.9
OLÁ bom dia! 
sou emerson representante da pulinox,trabalhamos com revilização em elevadores de aço inox com processo de lixamento ,escovação e polimento ;polimento de metais em geral 
gostaria de apresentar nossos produto e serviços. 
 
desde já obrigado  
aguardo sua resposta.
 5 PULINOX
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 14/02/2010 - 19:16 , IP: 200.210.47.9
OLÁ bom dia! 
sou emerson representante da pulinox,trabalhamos com revilização em elevadores de aço inox com processo de lixamento ,escovação e polimento ;polimento de metais em geral 
gostaria de apresentar nossos produto e serviços. 
 
desde já obrigado  
aguardo sua resposta.
E-mail PDF Imprimir