Interferências da Arquitetura e do Urbanismo na Poluição Sonora
26 de setembro de 2008 - 14:47
Image Débora Barretto: A sociedade industrial trouxe um incremento de atividades que geram um aumento do nível de ruído, especialmente nas grandes cidades e com ele o aparecimento de uma nova contaminação do meio-ambiente: a acústica. O aumento de circulação de veículos, da potência dos mesmos, a ploriferação de tráfego aéreo e sobre trilhos próximos de núcleos urbanos, o maior uso da maquinaria industrial, o incremento de ruído nas atividades de diversão, a incorporação dos aparatos elétricos nos lugares, entre outros, provocam um aumento de ruído e, portanto, uma agressão ao meio ambiente. Atualmente, o ruído é uma das perturbações que mais afetam os seres vivos, tanto de dia quanto de noite, e tanto no exterior quanto no interior das residências e locais públicos e pode ocasionar doenças tanto fisiológicas quanto psicossomáticas.

Em Salvador, de acordo com a pesquisa efetuada por Souza (1991), os níveis de ruído nas vias encontram-se acima dos padrões fixados pela NBR 10.151 (ABNT, 1987), enquadrando-se nas faixas entre 70 e 90dB(A). Segundo a mesma pesquisa, os índices de ruído urbano caracterizados pelo tráfego rodoviário variam em função da hierarquia do sistema viário.

Por outro lado, vias destinadas ao tráfego intenso são ocupadas, progressivamente, em suas laterais e vizinhanças por edificações cuja destinação requer silêncio, via de regra sem maiores adequações quanto ao tratamento acústico, no que diz respeito ao ruído gerado por veículos. Isso poderia ser facilmente resolvido caso houvesse uma legislação que obrigassem as construtoras a implantarem esquadrias e paredes com um nível maior de isolamento acústico.

Do ponto de vista morfológico observa-se que o ruído resultante de diferentes fluxos de veículos pode ser alterado pelas reflexões sonoras que ocorrem nas edificações laterais. Isso demonstra que a inadequação do planejamento viário e da legislação do uso do solo pode e tende a agravar o ruído proveniente do tráfego, à medida que a cidade se adensa ao longo das vias principais.

O problema maior é em relação às vias que não sendo planejadas para a absorção do aumento constante de veículos em seu trajeto, tais como vias locais ou de simples acesso a áreas silenciosas, vão sendo transformadas em corredores de tráfego, ao serem olhadas pelo gerenciamento público apenas como canal de tráfego, e não como um dos elementos estruturadores da vida no espaço do bairro, perdendo a oportunidade de receberem tratamentos técnicos mais adequados do ponto de vista acústico. Assim, cada veículo em movimento emite sons que ao longo das vias se superpõem ao ruído dos diversos veículos com diferentes velocidades, acelerações e posições na via, formando ondas sonoras que se refletem sucessivamente nos elementos físicos do espaço urbano, contribuindo para o aumento da intensidade do ruído nesses espaços. Normalmente o que existe é uma desvinculação entre as diretrizes de um planejamento viário e as tipologias construtivas, pois deve-se levar em conta a proteção contra o ruído de tráfego nos espaços lindeiros e os requerimentos tecnicamente embasados em estudos mais aprofundados da realidade para adotar quando necessário medidas mitigadoras.

A preocupação com o ruído no licenciamento de novas instalações é focalizada no projeto e no espaço circundante da instalação. Na maior parte das situações não é exigível a utilização de um modelo de previsão para quantificar os níveis sonoros associados ao funcionamento da instalação. O projeto acústico das edificações onde a atividade ficará instalada (se aplicável) deve ser exigido. Sempre que ocorra impacto nas proximidades há que incluir a obrigatoriedade de adotar medidas de controle de ruído para o exterior. A verificação de isolamentos sonoros produzidos para o exterior tem que ser efetuada antes da atribuição da licença ou autorização definitiva das atividades. A licença ambiental deve prever monitorização de ruído.

Além de atrapalhar as atividades normais, a poluição sonora pode causar diversos danos à saúde e tem reflexos em todo o organismo e não apenas no aparelho auditivo. O parâmetro de 55dB(A) da OMS objetiva proteger a maioria das pessoas de terem sérios problemas relacionados ao ruído.

O planejamento, a implantação e a operação dos sistemas de transportes, bem como os caminhos que levam ao planejamento do transporte sustentável representam uma forma de acelerar uma mudança ambiental positiva, capaz de reduzir a poluição sonora causada pelo excesso de modos de transportes ruidosos circulando na cidade.

Para se obter ambientes essencialmente humanizados é necessário encontrar formas de equilíbrio entre os ambientes externos e internos, onde o controle dos sons esteja contido na base teórica de uma arquitetura, que tenha como princípio contribuir para a melhoria das condições de vida do homem em seu ambiente natural ou construído, porque não é justo que o progresso tecnológico se apóie em bases de degradação do homem e do seu meio.

Portanto, caso não haja a inserção de medidas mitigadoras os reflexos na saúde da população serão intensificados. É importante que a articulação da edificação com o espaço urbano deva ser feita levando-se em conta a questão do ruído ambiental e considerando os diversos reflexos psico-fisiológicos na população, ou seja, trata-se de uma questão social que deve ser amplamente discutida.

Na busca de soluções para o problema da acústica ambiental é importante tratar a questão como um conjunto de elementos responsáveis pela situação, pois não há como detectar uma única fonte de ruído.

Ser cidadão é entender que não se está só no mundo, é saber respeitar o próximo e o meio ambiente, é constituir e ser constituído, é pertencer a uma sociedade de forma atuante e digna, é preservar o presente prevenindo-se contra um futuro impraticável, é ser realista e honesto, é, acima de tudo, amar a sua vida e a dos outros seres. Se cada um e cada instituição contribuir para a redução do ruído em seu ambiente, cada órgão do próprio corpo, assim como das demais pessoas ao seu redor, estarão sendo beneficiadas.

por Débora Barretto - Responsável Técnica da Audium - Áudio e Acústica, empresa especializada em projetos de áudio e acústica (www.audium.com.br); Mestre em Engenharia Ambiental Urbana na área de Poluição Sonora pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (MEAU/UFBA); Especialista em Acústica nas Construções pela Universidade Politécnica de Madri (UPM); Arquiteta e Urbanista, graduada na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (FAUFBA); membro da Sociedade Brasileira de Acústica (SOBRAC).

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  Comentários (1)
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 1 Acustica em beneficio da vida
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 27/09/2008 - 11:07 , IP: 189.4.216.29
Prezada colega Débora, 
li com prazer o seu artigo; é um assunto vital para a qualidade de vida do cidadão, quase sempre ignorado e desconhecido, principalmente na área do poder publico, responsável pela preservaçao do "silencio" em nossas vidas... o silencio é patrimonio dos ilustres e demonstra a cultura das sociedades. Gostaria de estreitar relações consigo e quem sabe até convidá-la para colaborar em alguns dos meus projetos. 
Deixo meus cumprimentos. 
Claudio Cavalcanti 
Arquiteto 
Rio de Janeiro, RJ.
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