canal_profisional
Salvador, um Teatro Urbano
03 de maio de 2007 - 12:34
ImageAndré Lissonger:
Não existe urbanismo barroco na cidade de Salvador. Nem como permanência física, nem na sua história, nem como aprendizado para se pensar e produzir a cidade atual - não um urbanismo barroco no sentido de um tecido urbano pensado como sistema aberto, multi-polarizado, dinâmico e celebrativo de uma clara política reformista (religiosa, real ou republicana tal qual um dia foi na formação de grandes Estados Modernos como a exemplo do desenvolvimento da Roma a partir de Sixto V e da Paris a partir de Enrique IV - século XVII).

Não existe na cidade de Salvador, um projeto de conexão viária através de espaços significativos e irradiadores como praças, fontes, monumentos, jardins, edifícios, através de ricos dispositivos óticos como as grandes perspectivas. Aliás, Salvador não tem uma política urbana clara de realização de espaços públicos (fundamentais, como resposta civilizada à possibilidade do exercício da cidadania e diante da corrente privatização dos espaços da cidade), quiçá um urbanismo qualitativo. As ligações dos principais monumentos e espaços significativos realizados na Roma (intervenções em São Pedro, Praças de Espanha, Navona, Fontana de Trevi, etc) e na Paris Barroca (Place Royale, Des Vosgues, Dauphine, os jardins das Tulleries, de Versalhes, a formação do grande eixo Louvre-Arco do Triunfo e Champ Ellisies, etc), são amplos projetos de reforma política e urbana. Estes projetos são ligados a uma nova ideologia política centrada na propagação persuasiva e dinâmica da mensagem dos poderes através da sugestão de uma vida urbana barroca baseada na encenação pública ou nas festas (de procissões, das cortes, etc) e do oferecimento calculado de percursos viários intra-urbanos (para os cidadãos e estrangeiros).

  Essa espécie de teatro urbano dos poderes - o urbanismo barroco - necessitou, além da ampla vontade de reforma política, um nível altíssimo de qualificação artística para os projetos e as construções das intervenções. Os poderes (papal ou real) exigiam dos saberes arquitetônicos/artísticos um alto nível, mais do que de competência, de competitividade e criatividade. Ocorre que um novo sistema, claro na sua política, exige grandes inovações arquitetônicas e urbanísticas nas propostas e não a repetição de modelos incoerentes para a construção de uma nova realidade urbana... as cidades deveriam, para representar-se enquanto palco deste espetáculo, construir uma excelente infra-estrutura e funcionamento dos principais requisitos da qualidade de vida urbana - a tradução destes requisitos nestas cidades, ao longo dos séculos, foram as grandes conquistas em termos de habitação, saúde, educação, emprego, transporte e, enfim, lazer.

Salvador que alguns dizem barroca foi constituída em termos de múltiplos desejos de cidade - megamáquina desejante. Olhar alguns aspectos da cidade que nos parecem barrocos, nos exige um esforço tremendo de ligar micro-pontos, obras em pequena escala dentro de um tecido urbano em muito feito no improviso, mesmo diante de umas poucas intervenções conhecidas mais incisivas.

No que foi e é atualmente Salvador, observam-se outras faces de um outro tipo de "teatro urbano" diferente daquele não claramente planejado e exposto enquanto política e reforma na cidade. Nem melhor, nem pior... um "teatro urbano" apenas diferente, que é fruto da própria megamáquina desejante que é a cidade...

Eis algumas características deste "teatro urbano" contemporâneo que chamam cidade:

  1. São notórias as muitas reformas de espaços públicos centralizados e através dos percursos (orla, por exemplo) que coincidem ao da economia do lazer, do entretenimento e do simbólico, ao qual Salvador está dependentemente ligada; mas também notória a ausência da proliferação destes espaços em áreas não centrais e das suas claras conexões com os outros focos de intervenção.
  2. Também é notória a falta de clareza, diante de um quadro de relações de interesses tão diversos (políticos, empresariais, comerciais, habitacionais) das direções de reforma urbana nas áreas degradadas que se tornaram o antigo centro comercial e a orla marítima e ferroviária. Algumas tendências apontam para, desde a privatização do espaço público (especulação do solo) e privado (através de algumas festas, da poluição sonora) até a continuidade do processo de gentrificação estratégica e de favelização.
  3. A falta de uma maior participação das comunidades de arquitetos e urbanistas e da própria população no processo de construção de um claro projeto de cidade que se esbarra na multifacetada realidade desejante - nada consensual evidentemente como desejaria o PDDU de Salvador - de uma cidade povoada de arquiteturas que beiram a maravilhosa estética circence ou da disneylândia (através do espetáculo do colorido que sobressai na assumida aridez da ausência da vegetação e de passeios públicos), a estética das arquiteturas lingerie e das arquiteturas bijoux (através da importação de modelos americanizados de art decò, pseudo pósmodernos, pseudo-neoclássico ou da hiper-exposição de alguns monumentos através da iluminação como a dos motéis), a estética da arquitetura out door (pelas strips mais ou menos famosas da cidade e seus galpões e edifícios decorados) e uma gama enorme de "gambiarras" e "armengues", improvisações que aparentemente constituem um modo soteropolitano de construir sua própria cidade.
  4. Enfim é a espetacularização urbana que, além de nos oferecer tantas maravilhas do culto ao exótico, do patrimônio, do simbólico, da "bahianidade", do fetiche, do lazer, do ócio e do entretenimento, entre os cidadãos e, entre nós e os turistas, nos oferece a espetacularização das ausências: ausência de habitabilidade mais digna, de infra-estrutura urbana descentralizada, de formação profissionalizante e cultural descentralizada, de condições mais dignas de saúde, do transporte de massa, da ausência de passeios públicos, da ausência de preocupação com os deficientes, etc.
Sabe-se que, naquelas e outras tantas cidades citadas de um mundo teoricamente "civilizado", urbanistas e governantes deram continuidade, de uma ou outra forma, na medida evidentemente dos seus interesses, às lições de um passado nada simples e vivido com muitas lutas. Não se questiona aqui a necessidade de um cidade "civilizada" à européia, isso ela já desejou e muito; tampouco americano - a Salvador devir-Miami. Penso que me cabe, como cidadão e arquiteto-urbanista é ter em mente o por que?, o para que?, e o para quem? é melhor desejar uma cidade-fetiche em primeiro lugar ao invés de uma cidade que valoriza em primeira mão a habitação, a saúde, a educação, o emprego, o transporte, o comércio e os serviços e, mais ou menos em última via, o lazer. Preocupa-se aqui com o contraste nada interessante que se estabelece no poder da diferença: os contrastes entre, o espetáculo do exótico que esta megamáquina parece desejar para ela se apresentar como diferente das outras para o Brasil e para o mundo e, o que ela realmente é... nas gritantes diferenças entre a razoável qualidade de vida urbana de uns poucos e a deplorável de muitos.

Por André Lissonger *

Reflexões sobre as palestras "Salvador: Megamáquina Desejante" e "Urbanismos Barrocos: algumas questões de projeto", realizadas na FAUFBA nos dias 20/04/07 e 24/04/07 respectivamente.

"a cidade, não existe mais... podemos abandonar o teatro".

Rem Koolhaas; "S, M, L, XL".

* André Lissonger é mestre em arquitetura e urbanismo; professor das disciplinas de História, Teoria e Projeto da Arquitetura e do Urbanismo e publica o periódico digital independente "
LIMITES net cult zine".

Escrever comentário
  • Por favor, comente assuntos relevantes ao texto.
  • Ataques pessoais serão apagados.
  • Por favor, não use este espaço para uso comercial.
  • O comentário só será publicado com a digitação correta do código de segurança.
Nome:
E-mail
Site
Título:
Comentário:



Código:* Code
Desejo ser avisado dos próximos comentários publicados.


Views: 1978 | Imprimir | E-mail

  Comentários (5)
Comentários RSS
 1 LIMITES net cult zine . ano III
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail website, em 26/01/2008 - 21:25 , IP: 189.12.1.55
artes . arquiteturas . culturas urbanas
 2 Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail website, em 07/08/2007 - 12:07 , IP: 201.70.62.135
Caro colega Nogueira, fico muito feliz que tenha levantado as suas questões. 
 
De verdade e, se permite, vão alguns comentários: não sei se a palavra espraiamento seria a adequada... pois como procurei introduzir na minha palestra "Megamáquinas", existem diversas "razões" [de relações de forças entre poderes e saberes] para as ditas intervenções ou mesmo ausência de outras nesta cidade. 
 
Segundo, sendo assim, acho que o processo já é "racional", e propor algo fora destas lógicas é, de fato, muito difícil. Também o nível do aceitável e do concretizável faz parte destas mesmas relações. 
 
Sendo assim... o que poderíamos talvez é propor algo não racional, algo não concretizável ou mesmo algumas coisas não aceitáveis. Porque o problema não está em propor... em algumas instituições públicas já tem algumas das nossas propostas.. o problema, acho, e poderíamos discutir, seria rever o processo de construção da cidade [em plano], rever também até onde vai um processo baseado no laisse fairez [lógica do capital imobiliário] e no urbanismo "estratégico" do Plano Diretor [base na teoria do consenso entre as incompatibilidades - política, empresários e população]. Então essa seria a primeira proposta, uma antiproposta, "irracional", ""inconcretizável", etc... Acho que repensar essa fórmula de propor a cidade no discurso da "cidade do pensamento único" seja algo base a ser feito. Mas ainda assim haverão os choques, os conflitos, é claro, com aquelas forças a que me referi anteriormente. 
 
Outro problema, e esse também tenho culpa, e muitos arquitetos idem, é a ausência de discussão... mas parece que o IAB-BA tem tentado retomar algumas questões, como também Ana Fernandes e Armando Branco. 
 
Acho que nesse quadro que muito "colorido" e não negro, quando a gente bota umas "sombras" aqui e ali, e isso também é contribuição, um ou outro fica chateado. Mas essa é nossa função também, haja vista que não existem concursos públicos para as intervenções nesta cidade, e assim, propor aqui, na maioria das vezes, fica no papel [plano do não concretizado]. 
 
Respeitosamente, mais uma vez obrigado, 
 
AL
 3 Contato
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail website, em 11/06/2007 - 10:35 , IP: 201.8.114.121
Claudia, Por favor, envie seu e-mail para Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail que passaremos o contato do arq. André Lissonger.
 4 Contato
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 11/06/2007 - 09:29 , IP: 201.50.29.110
Como faço p entrar em contaTo com André Lissonger?
 5 Sim, e que mais?
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar ativado para poder visualizar o endereço de e-mail , em 26/05/2007 - 14:03 , IP: 200.97.7.184
André Lissonger: 
 
Tudo bem, podemos até aceitar que "baixe o cacete" em todo um processo autêntico de espraiamento da urbe em questão - aliás, todo mundo faz isso; a questão é que ninguem propões nada racional, aceitável e concretizável. 
 
Por acaso, o que proporia para "melhorar o negro quadro" que quis pintar? 
 
Só consegui ler insatisfação, mas propostas... 
 
Em um próximo artigo no Portal? 
 
Espero 
 
Cordialmente 
Nogueira
E-mail PDF Imprimir
 

Participe