André Lissonger:
Não existe urbanismo barroco na cidade de
Salvador. Nem como permanência física, nem na sua história, nem como
aprendizado para se pensar e produzir a cidade atual - não um urbanismo barroco
no sentido de um tecido urbano pensado como sistema aberto, multi-polarizado,
dinâmico e celebrativo de uma clara política reformista (religiosa, real ou
republicana tal qual um dia foi na formação de grandes Estados Modernos como a
exemplo do desenvolvimento da Roma a partir de Sixto V e da Paris a partir de
Enrique IV - século XVII).
Não
existe na cidade de Salvador, um projeto de conexão viária através de espaços
significativos e irradiadores como praças, fontes, monumentos, jardins,
edifícios, através de ricos dispositivos óticos como as grandes perspectivas. Aliás,
Salvador não tem uma política urbana clara de realização de espaços públicos
(fundamentais, como resposta civilizada à possibilidade do exercício da
cidadania e diante da corrente privatização dos espaços da cidade), quiçá um
urbanismo qualitativo. As ligações dos principais monumentos e espaços
significativos realizados na Roma (intervenções em São Pedro, Praças de
Espanha, Navona, Fontana de Trevi, etc) e na Paris Barroca (Place Royale, Des
Vosgues, Dauphine, os jardins das Tulleries, de Versalhes, a formação do grande
eixo Louvre-Arco do Triunfo e Champ Ellisies, etc), são amplos projetos de
reforma política e urbana. Estes projetos são ligados a uma nova ideologia
política centrada na propagação persuasiva e dinâmica da mensagem dos poderes através
da sugestão de uma vida urbana barroca baseada na encenação pública ou nas
festas (de procissões, das cortes, etc) e do oferecimento calculado de
percursos viários intra-urbanos (para os cidadãos e estrangeiros).
Essa
espécie de teatro urbano dos poderes
- o urbanismo barroco - necessitou, além da ampla vontade de reforma política,
um nível altíssimo de qualificação artística para os projetos e as construções
das intervenções. Os poderes (papal ou real) exigiam dos saberes
arquitetônicos/artísticos um alto nível, mais do que de competência, de
competitividade e criatividade. Ocorre que um novo sistema, claro na sua
política, exige grandes inovações arquitetônicas e urbanísticas nas propostas e
não a repetição de modelos incoerentes para a construção de uma nova realidade
urbana... as cidades deveriam, para representar-se enquanto palco deste
espetáculo, construir uma excelente infra-estrutura e funcionamento dos
principais requisitos da qualidade de vida urbana - a tradução destes
requisitos nestas cidades, ao longo dos séculos, foram as grandes conquistas em
termos de habitação, saúde, educação, emprego, transporte e, enfim, lazer.
Salvador
que alguns dizem barroca foi constituída em termos de múltiplos desejos de
cidade - megamáquina desejante.
Olhar alguns aspectos da cidade que nos parecem barrocos, nos exige um esforço
tremendo de ligar micro-pontos, obras em pequena escala dentro de um tecido
urbano em muito feito no improviso, mesmo diante de umas poucas intervenções
conhecidas mais incisivas.
No
que foi e é atualmente Salvador, observam-se outras faces de um outro tipo de "teatro
urbano" diferente daquele não claramente planejado e exposto enquanto política
e reforma na cidade. Nem melhor, nem pior... um "teatro urbano" apenas
diferente, que é fruto da própria megamáquina
desejante que é a cidade...
Eis
algumas características deste "teatro urbano" contemporâneo que chamam cidade:
São notórias as
muitas reformas de espaços públicos centralizados e através dos percursos
(orla, por exemplo) que coincidem ao da economia do lazer, do
entretenimento e do simbólico, ao qual Salvador está dependentemente
ligada; mas também notória a ausência da proliferação destes espaços em
áreas não centrais e das suas claras conexões com os outros focos de
intervenção.
Também é notória a
falta de clareza, diante de um quadro de relações de interesses tão
diversos (políticos, empresariais, comerciais, habitacionais) das direções
de reforma urbana nas áreas degradadas que se tornaram o antigo centro
comercial e a orla marítima e ferroviária. Algumas tendências apontam
para, desde a privatização do espaço público (especulação do solo) e
privado (através de algumas festas, da poluição sonora) até a continuidade
do processo de gentrificação estratégica e de favelização.
A falta de uma
maior participação das comunidades de arquitetos e urbanistas e da própria
população no processo de construção de um claro projeto de cidade que se
esbarra na multifacetada realidade desejante - nada consensual
evidentemente como desejaria o PDDU de Salvador - de uma cidade povoada de
arquiteturas que beiram a maravilhosa estética circence ou da disneylândia
(através do espetáculo do colorido que sobressai na assumida aridez da
ausência da vegetação e de passeios públicos), a estética das arquiteturaslingeriee dasarquiteturas bijoux(através
da importação de modelos americanizados de art decò, pseudo pósmodernos, pseudo-neoclássico ou da hiper-exposição de alguns monumentos
através da iluminação como a dos motéis), a estética da arquiteturaout door (pelas strips mais ou menos famosas da
cidade e seus galpões e edifícios decorados) e uma gama enorme de
"gambiarras" e "armengues", improvisações que aparentemente constituem um
modo soteropolitano de construir sua própria cidade.
Enfim é a
espetacularização urbana que, além de nos oferecer tantas maravilhas do
culto ao exótico, do patrimônio, do simbólico, da "bahianidade", do
fetiche, do lazer, do ócio e do entretenimento, entre os cidadãos e, entre
nós e os turistas, nos oferece a espetacularização
das ausências: ausência de habitabilidade mais digna, de
infra-estrutura urbana descentralizada, de formação profissionalizante e
cultural descentralizada, de condições mais dignas de saúde, do transporte
de massa, da ausência de passeios públicos, da ausência de preocupação com
os deficientes, etc.
Sabe-se
que, naquelas e outras tantas cidades citadas de um mundo teoricamente
"civilizado", urbanistas e governantes deram continuidade, de uma ou outra
forma, na medida evidentemente dos seus interesses, às lições de um passado
nada simples e vivido com muitas lutas. Não se questiona aqui a necessidade de
um cidade "civilizada" à européia, isso ela já desejou e muito; tampouco
americano - a Salvador devir-Miami. Penso
que me cabe, como cidadão e arquiteto-urbanista é ter em mente o por que?,
o para
que?, e o para quem? é melhor desejar uma cidade-fetiche em primeiro
lugar ao invés de uma cidade que valoriza em primeira mão a habitação, a saúde,
a educação, o emprego, o transporte, o comércio e os serviços e, mais ou menos
em última via, o lazer. Preocupa-se aqui com o contraste nada interessante que
se estabelece no poder da diferença:
os contrastes entre, o espetáculo do exótico que esta megamáquina parece
desejar para ela se apresentar como diferente das outras para o Brasil e para o
mundo e, o que ela realmente é... nas gritantes diferenças entre a razoável
qualidade de vida urbana de uns poucos e a deplorável de muitos.
Por André Lissonger *
Reflexões sobre as palestras "Salvador: Megamáquina Desejante" e "Urbanismos Barrocos: algumas questões de projeto", realizadas na
FAUFBA nos dias 20/04/07 e 24/04/07 respectivamente.
"a cidade,
não existe mais... podemos abandonar o teatro".
Rem Koolhaas; "S, M, L, XL".
* André Lissonger é mestre em arquitetura e urbanismo; professor das disciplinas de História, Teoria e Projeto da Arquitetura e
do Urbanismo e publica o periódico digital independente "LIMITES net
cult zine".
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